Trabalhei certa vez em uma empresa cujo gestor administrativo era extremamente centralizador. Tão centralizador que chegava a ser sufocante. Era óbvio para mim, recém-formada, que o motivo da empresa não evoluir era ele: não bastasse ser centralizador, ele também tratava mal os funcionários, gritava, pressionava e tudo isso de maneira desnecessária, porque num dia mais tranquilo (como no dia que ele se ausentava por algum motivo), o clima organizacional era outro, muito mais leve, até o ar.
A pergunta que pairava na minha cabeça era: será que o dono
da empresa não percebe que o gargalo, gatilho e problema da empresa (uma
empresa pequena, de 15 funcionários) era aquele gestor?
Sempre penso naquele senhor, sem entender a alta
rotatividade da empresa. Lembro quando ele me contratou, ele aparentava ter uma
esperança boa em mim. Eu, que nunca tive muitos problemas com trabalho, não
aguentei 1 mês completo lá. Lembro dos olhos dele de decepção, de quem dizia,
silenciosamente “achei que você iria me salvar”.
Ricardo (nome fictício) era o grande problema, mas pro dono,
ele era sua solução também, afinal, sem o mesmo, a empresa mal funcionava: era
ele quem dominava os processos, retinha as informações e guardava pra si o
maior conhecimento possível.
Estratégico, eu diria. Fazendo isso, ele garantia o emprego
dele, já que ninguém mais sabia o que ele sabia fazer. Mas também, de certa
forma, e perdão a palavra, também era uma estratégia burra. Porque quando o
conhecimento é travado em você, você trava junto e não consegue migrar para
lugar nenhum: fica ali, parado, executando o mesmo processo sempre.
Para se tornar gestor, por exemplo, você tem que deixar as atribuições de analista, e só é possível deixar as atribuições de analista se você treinar outra pessoa e transmitir seus conhecimentos à ela, enquanto você segue crescendo em novos conhecimentos necessários à sua nova função.
É assim que a empresa, inclusive, cresce de tamanho. Não tem
como somente um gerente controlar uma empresa inteira que está em forte
expansão, a não que ele retenha o conhecimento somente para si, e com isso,
impede a empresa de crescer.
Era essa a minha leitura daquela pequena empresa que tinha
tanto para crescer. Era difícil trabalhar ali, já que tudo tinha que ser do
jeito do Ricardo, até mesmo o jeito de levar café para o dono.
Depender de uma única pessoa retentora da informação daquele
serviço – e note, estou dizendo sobre uma única pessoa deter a informação, não
sobre mais pessoas executando a mesma função – torna o processo travado,
difícil, e o pior de tudo, na minha opinião: faz a empresa travar.
Se Ricardo inventasse de ir embora, aquela empresa parava em
seus processos, e não estou mentindo quando falo isso. O dono não fazia a menor
ideia de como comandar a empresa sem Ricardo, e demoraria um bom tempo até que
todas as funções fossem de fato colocadas em seus devidos lugares.
Ao mesmo tempo, era impossível que Ricardo pudesse se
tornar, por exemplo, um gestor chefe, ou até mesmo que a equipe crescesse,
porque um gestor apenas não consegue dar conta de uma demanda massiva de
funcionários abaixo dele: e é por isso que existem as estruturas: o gestor, que
tem coordenadores, que tem supervisores, que tem a linha de base.
Geralmente é assim que uma empresa cresce e se estrutura. E
depender de um funcionário só faz com que essa realidade se torne impossível, o
funcionário sobrecarregado ou então folgado – os dois caminhos são
perfeitamente possíveis (e terríveis).
Portanto, a melhor solução possível para tal é documentar todos os processos, incentivar uma cultura colaborativa e de troca de informações e crescimento, pois assim, todos podem aprender, crescer e, crescendo, a empresa cresce junto.
Pode até ser que a empresa só tenha condições de contratar
somente um funcionário para aquele cargo e está tudo bem, esse não é o ponto. O
ponto é o risco da operação da sua empresa – ou de uma área em específico –
ficar dependente daquela pessoa, pois assim o crescimento dela está fadada à
limitação ou até mesmo ao fracasso.
No fim das contas, empresas não crescem apenas com boas
ideias ou bons produtos. Elas crescem quando o conhecimento circula, quando as
pessoas aprendem umas com as outras e quando os processos deixam de depender da
memória ou da boa vontade de alguém específico.
Quando uma empresa depende de uma única pessoa para
funcionar, ela não tem um colaborador indispensável: ela tem um risco
operacional.
E todo risco operacional, mais cedo ou mais tarde, cobra seu
preço.
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